INGEBORG BACHMANN: ALÉM DO SILÊNCIO, A POESIA

 

Vera Lins -

 

Deve soar paradoxal, pois se falou de mudez e silêncio como consequência dessa falta do escritor consigo e com a realidade, uma falta que hoje apenas tomou outras formas. Conflitos religiosos e metafísicos foram substituídos por conflitos sociais , humanos e políticos. E todos desembocam para o escritor no conflito com a linguagem. [1]

Ingeborg Bachmann

 

Anselm Kiefer, que, nos anos 80, fizera uma série de quadros sobre o poema Fuga da morte de Celan,  entre 1995 e 96, pintou uma outra série com o título de um poema de Ingeborg Bachmann, „A Boêmia fica à beira mar“.[2] Nos quadros como no poema, a Boêmia, região em torno de Praga, visitada pela escritora em 64, se torna um lugar que configura uma utopia. O poema foi escrito a partir de uma frase de Ben Johnson sobre Shakespeare em que dizia que este nem sabia que a Boêmia não fica à beira mar.[3]

Bachmann se apropria da frase e recria este território, do qual vem o termo boêmio, como um lugar de esperança, talvez também pela experimentação socialista que se dava aí, porém muito mais  pela tradição cigana, nômade, dos habitantes da região. O quadro de Kiefer mostra, ao contrário da terra carbonizada da série anterior, um campo em que crescem vegetação e flores. Como o pintor e como Celan, Bachmann é uma poeta do desastre, da catástrofe, mas também da utopia. Como um tipo de judeu errante, o boêmio busca um lugar outro . Neste poema diz:

 

Ainda confino com uma palavra e com outro país,

confino, por pouco que seja, com tudo cada vez mais,

um boêmio, um vagante que não tem nada, a quem nada segura,

com apenas o talento de ver, do mar disputável, a terra da minha escolha

 

Paul Celan coloca como epígrafe de um poema  de seu livro A rosa de ninguém umafrase de Marina Tsvetaieva :“Todos os poetas são judeus". As idéias de exílio e deslocamento que essa  condição de judeu une à de poeta percorrem, fazem a poesia de Ingeborg Bachman: Diz no poema, Como posso me chamar?„(Wie soll ich mich nennen?): "Como posso me chamar sem estar em outra língua". E no poema Exílio :

 

Apenas o vento, o tempo e o som

que não posso viver no meio dos homens

 

eu com a língua alemã

esta nuvem em torno de mim

que mantenho como casa

divago por todas as línguas

 

 

Essa errância  aparece como esperança no poema, A Boêmia fica à beira-mar A poesia de Ingeborg Bachmann é resistência e utopia, resistência à apropriação da linguagem pelo sistema que a usa para adormecer os sentidos e fazer esquecer. Contra isso é preciso retomar a capacidade de revoltar-se, interrogar e recusar. No poema, Pergunto , um eu se agita, inconformado.

 

Eu me agito – quando olho para o céu,

na tentativa de gozo e fúria.

Estou brigada com Deus e o seu mundo

E nem de joelhos nunca senti

Que existe a paz dos humildes,

dada a todos os outros tão sem esforço.

 

Em Propaganda voltam as perguntas, alternadas com um texto em itálico, o discurso anestesiante dos anúncios:

 

Então para onde vamos

não se preocupe, fique tranquilo

quando cai a noite quando faz frio

fique tranquilo

mas

com música

que devemos fazer

alegres e com música

 

             Sua ida para Roma, suas viagens, sua escrita, mostram essa necessidade de deslocamento, a procura de uma outra terra, como pátria perdida, para superar a confusão babilônica e nela abrir a possibilidade de um instante de verdade, uma verdade que é  criação, produção desse eu ancorado na história. Diz: „eu não me corrompo pela atualidade, mas a corrompo“. E : „não se acredita mais numa poesia fora da situação histórica. O poeta pode conseguir duas coisas: representar, representar seu tempo e apresentar algo para o qual ainda não chegou o tempo“.[4]

 

Sua poesia é também resistência à tentação do silêncio. Como Christa Wolf que , retomando Wittgenstein, diz outra coisa: „Sobre aquilo de que não se pode falar , deve-se parar de silenciar...“  Para Bachmann, literatura é forma de conhecimento, em que se esbarram com limites, mas  insiste na tentativa de ultrapassá-los. Literatura é utopia como direcionamento, não meta, um esforço na linguagem de iluminação da sombra e direcionamento utópico para uma saída desconhecida ou ainda não conhecida . Oposição e possibilidade de uma outra linguagem.Diz “Em cada obra há uma falta que impele a outra. O entusiasmo com alguns textos é o entusiasmo pela folha branca ainda não escrita“.[5]

 Na radicalidade com a linguagem se mostram as afinidades, intensificadas pela  situação histórica,  que a  aproximam de Celan, de Ana Akmatova , para quem tem um poema e de Christa Wolf. Bachmann fez uma tese sobre Wittgenstein e sobre Heidegger, mas  deixa claro que sua poesia não tem diretamente nada a ver com essas teses. Heidegger queria para seu Festschrift um poema dela e de Celan, ambos disseram não, pois eram contra seu discurso de reitor.

Diz que Wittgenstein lhe esclareceu algumas coisas sobre as quais ainda não conseguia pensar. Há um indizível que apenas se mostra na poesia. A poesia é um novo andamento (Gangart) da linguagem. É preciso ir além do que se pode dizer. Ultrapassar um mundo que não engana mais, não ilude. Nele não pode acreditar. Em  Pergunto

 

Estou brigada com Deus e seu mundo

[...]

estás cansado mundo

que me deu a luz apenas pronto para carregar-me de cadeias e,

onde posso arder e me extasiar,

cravar em mim mais forte a sua sombra,

 

            Nas aulas que deu em Frankfurt sobre poesia contemporânea,  diz que se reconhece um poeta pela manifestação em sua poesia de uma questão constante e inevitável, assim a obra se acompanha sempre de uma preocupação teórica secreta ou evidente.

 

Afinal de contas o que fica é isso: ter  que se esforçar com a língua corrompida que encontramos, na direção de uma língua que até hoje ainda não predominou, mas que orienta nosso pressentimento e que imitamos [...] Mas uma imitação dessa língua pressentida por nós, de que ainda não conseguimos nos apropriar completamente. A possuímos apenas como fragmento na poesia, concretizada numa linha ou numa cena e, aliviados, nos damos conta  de que nela encontramos nossa linguagem.[6]

 

Areflexão sobre a poesia é uma constante em seus escritos, o conto Ondina se vai (Undine geht) é comparado ao Meridiano, texto de Celan sobre a arte, discurso proferido quando este ganhou o prêmio de Bremen. Meridiano foi escrito em 60 e nele se diz que a poesia é solitária, solitária e está a caminho. A poesia vai para um outro, ela precisa desse outro, ela precisa de um outro frente a ela. Ela o procura, ela fala com ele. No Meridiano, trata-se do diálogo desesperado do poema.

                Em Ondina se vai, de 61, Ondina, personagem do romântico alemão Friedrich de la Motte Fouqué, que Bachmann compara a Lulu, de Wedekind, é a palavra trágica, a própria poesia, no que ela tem de solitário e distante da praxis social e no que tem de crítica.  A sereia no seu discurso fala  nos limites do silêncio e da dissolução para um outro a quem ela aponta suas barreiras sociais e institucionais, um homem chamado Hans que é todos e um só  e  a quem ela precisa falar. Trata-se de uma saída fora do humano, de ficar num domínio dirigido ao humano, mas tal que o humano se sente aí sem lugar Para Rancière[7]  a potência de pensamento do poema nega todo sentido cristalizado, é potência de vida. e exige que se proceda do fundo da perdição. O  pensamento acontece desorientando e reorientando. Para Bachmann como para Celan o ato poético é um ato de pensamento. Mas não um pensamento submetido ao cogito, nem reflexão consciente. Por isso a sereia, prestes a se desfazer em espuma, configura,  nos limites do silêncio e da dissolução, a poesia como libertação do indivíduo para a possibilidade de pensar um mundo que seja outro. A poesia sempre fala em protesto,  fala do sonho de um mundo em que as coisas fossem diferentes, é reação à coisificação do mundo, ao domínio da mercadoria[8]. A sereia  chama os humanos de traidores , monstros, que enquanto ela não se fixa e vive a solidão, eles se ocupam com fronteiras, jornais e banco, bolsa, comércio e seus casamentos.

Ondina, a poesia, se dirige a esse outro que é o humano, com desejo e furor, como potência da natureza que inquieta. Ela é a provocação, a revolta, uma palavra contra, que vai silenciar, que termina se dissolvendo. Mas que aposta o tempo todo no reencontro,  no entanto, um reencontro que também é abissal.

            Numa das aulas de Frankfurt, Bachmann se pergunta:

 

Como se reconhece um verdadeiro poeta e uma poesia? Se reconhece numa nova completa definição numa ordenação, numa secreta ou manifesta exposição de um pensamento inevitável. Atemporais sem dúvida são apenas as imagens. O pensamento que aprisiona o tempo, se submete por sua vez ao tempo. Mas porque se submete, por isso mesmo nosso pensamento deve ser novo, se quiser ser verdadeiro e se quiser interferir.[9]

 

Nas  cinco aulas que deu na Universidade de Frankfurt,  Bachmann diz  que quando a arte abre uma nova possibilidade, ela nos torna possível reconhecer onde estamos e onde deveríamos estar. A arte busca transformação.  E, citando Simone Weil, que diz que o povo precisa de poesia como de pão, acrescenta que esse pão deve quebrar entre os dentes para  acordar de novo a fome, mais do que aplacá-la. 

Para Bachmann toda obra se acompanha de um preocupação teórica. que vai na direção de um constante problema inevitável .Escreveu sobre Musil e talvez com ele e Ernest Bloch confine sua posição utópica. Sua é a idéia de redenção que aparece nos escritos de Bloch e Benjamin, um aparecer instantâneo de um mundo salvo, redimido. Música e poesia partilham de uma linguagem universal que supera a confusão babilônica e nelas se abre a possibilidade de um instante de verdade e a possibilidade de uma nova consciência e com isso uma nova vida com um outro uso da linguagem. Diz em Malina:

 

Um dia virá no qual os homens terão os olhos de um negro dourado, eles verão a beleza, estarão livres de sujeira e de qualquer peso, se erguerão nos ares, mergulharão sob as águas esquecerão suas necessidades. Um dia virá, eles serão livres, todos os homens serão livres também da liberdade que pensaram. Será uma liberdade maior, extrema, será por toda uma vida.[10]

 

Bachmann falou e escreveu muito, se espraiou por vários textos, deslocando seus gêneros, e em todos perseguindo os mesmas questões.O deslocamento que opera na linguagem faz com que trabalhe tanto o romance Malina e outros inacabados, uma série de peças radiofônicas um drama, Carmem Ruidera de 42, libretos,  ensaios e traduções como a de Ungaretti

Ingeborg Bachmann nasce na Caríntia, provincia que fica na fronteira da Áustria com a Iugoslávia e a Itália, na cidade de Klagenfurt, em 1925 e morre em Roma, em  1973.  É da geração que viveu a segunda guerra e diz que sua dor mais forte foi ver a entrada brutal das tropas nazistas na cidade, em 1938.  O eu que fala em sua poesia está imerso nessa história de repressão violenta. Seu primeiro livro de poesia é Die gestundene Zeit (O tempo prorrogado) de 1953 com o qual ganha o prêmio do grupo 47. Em 54 aparece na capa da revista Der Spiegel. O outro livro de poesia é publicado em 56, O chamado da Ursa Maior (Anrufung des Großen Bären)

As aproximações entre os dois, Celan e Bachmann, não são apenas poéticas, ela integrou o Grupo 47,  com Ilse Aichinger e Celan . Quando leu seus poemas para eles,  num quase murmúrio, ficaram encantados e ela passou a fazer parte do grupo. Aliás Bachmann diz que não há correspondências poéticas, há interferências revolucionárias singulares porque„As coisas não estão no ar. Se faz uma nova experiência, não se a apanha no ar“.  [11]

Para ela a vida dói, o que faz a palavra ficar atravessada. Descobre as relações entre  fascismo e patriarcado, Diz que o fascismo começa na relação entre os homens e tem um conto Entre assassinos e loucos (Unter Mörder und Irren), que trabalha justamente esse fascismo latente. Para ela, numa sociedade há sempre guerra, não há guerra e paz, há só guerra, e discute em vários poemas, peças radiofônicas e romances,  o amor e a relação homem/mulher. Planeja uma série de romances  a que dá o titulo de modos de morrer (Todesarten), da qual faz parte o romance Malina, traduzido no Brasil nos anos 80. Para Bachmann,   matar  é fazer o que a sociedade faz. Assim há uma questão ética primordial.

No poema  Um tipo de perda, que me lembra One art de Elisabeth Bishop fala da perda de uma relação amorosa,  através de detalhes concretos, objetos e acontecimentos partilhados num devotamento total, que depois se torna não a perda de alguém , mas a perda total de um mundo.

Usados a dois: estações do ano, livros e uma música

 

As chaves, as xícaras de chá, a cesta de pão, lençóis

 e uma cama.

Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos,

 usados, gastos.

Um regulamento observado. Dito. E feito. E sempre

  a  mão  estendida

 [...]

Não foi a ti que perdi

 mas ao mundo.

 

Em Reigen, que tem o mesmo título da peça de Schnitzler, e que traduzimos como  „Ronda“,  como na „Quadrilha“ de Drummond , se diz sobre o amor:

          

As vezes o amor pára

No extinguir-se dos olhos

E vemos para dentro

Dos seus próprios extintos olhos

 

Fumaça fria subindo da cratera

Sopra em nossos cílios

O vazio terrível prendera

A respiração apenas uma vez

 

Vemos os olhos mortos

E não esquecemos nunca

O amor perdura sempre

E não nos reconhece nunca

 

Bachmann retoma as propostas radicais dos vienenses do fim do século dezenove, como Hofmansthal e sua Carta de Lord Chandos. E Musil com sua utopia de um terceiro estado, uma terceira margem que a poesia pode criar. E que é dada em instantes de iluminação, na relação de amor e numa nova linguagem. A questão ética, a necessidade de subscrever, assinar o que se escreve, mostra que sua procura de uma nova linguagem é uma procura existencial, o que a aproxima de Celan. Certas imagens e algumas passagens de Malina me lembram às vezes Silvia Plath  e sobre a escritora americana também deixou o esboço de um ensaio que trataria do romance –The Bell Jar.   Diz manter um pé na selva e outra na eterna civilização. O que lembra o trabalho de Cabral com a palavra seda, em que recupera seu lado cru,  contra o sentidos estratificados, trabalhando o intervalo entre a „palavra gasta“ e a „coisa seda“.[12] Como ele, quer uma poesia cafeína que acorde os homens sonolentos: „essa poesia deve se tornar aguda quanto ao conhecimento e amarga quanto ao sentimento para poder mexer no sono dos homens; dormimos demais de medo de termos de perceber a nós e ao mundo“.

Assim, a utopia de religar pensamento e sentimento: numa outra razão,um pensamento que nos diga completamente. Diz: desejo escrever o que era no início., a linguagem esquecida de nosso coração.  Como no poema Vai, pensamento,

 

Vai pensamento, enquanto for tua asa uma palavra

pronta para o vôo, te levanta e caminha para lá

onde os leves metais balançam,

onde o ar é cortante

num novo entendimento, onde armas falam

de forma única

Luta por nós lá.

[...]                                                                                                                                                     

Deixa estar o que está de pé, vai, pensamento!

penetrado por nada mais que a nossa dor.

Iguala-te a nós, inteiro!                                                                                   

 

O que implica, no entanto, um compromisso total com a linguagem.  Não se escreve impunemente. Há resistência  enraizada na  vida, na linguagem, na história. Como para Celan, também a língua alemã é uma questão  para a literatura austríaca, tanto pela história recente, como a língua do invasor, como mais antiga mesmo. Para delimitar o que  é a literatura austríaca é preciso olhar além da língua, a cultura. A cultura de um país que foi  um império que englobava várias culturas e línguas, a húngara e techeca, a italiana. E Bachmann se pergunta, que unidade há nisso a não ser um precário ajuste de fragmentos. Diz que a Austria, como foi um império, tem um sentimento de desmoronamento que permanece inconsciente e  leva a um tipo de melancolia.

             Começa suas aulas em Frankfurt citando a Carta de Lord Chandos de Hofmannsthal como  um texto em que a questão da linguagem é colocada radicalmente, fora de qualquer esteticismo. Num mundo em que as realidades de espaço e tempo foram desfeitas, a realidade espera continuamente uma nova definição, pois a ciência a deformou totalmente. Com uma nova fala  a realidade é encontrada onde um arranque moral de conhecimento acontece e não onde se tenta tornar a linguagem nova nela mesma[13]. Em Nenhuma guloseima (Keine Delikatesse) se pergunta:

 

Devo

aprisionar um pensamento,

conduzi-lo a uma frase-cela iluminada?

alimentar olho e ouvido

com palavras bocados de primeira?

pesquisar a libido de uma vogal

averiguar o valor de estimação de nossas consoantes?

 

Preciso

com a cabeça tonta

com cãibras nessa mão que escreve

sob uma pressão de trezentas noites

rasgar o papel,

varrer as urdiduras das óperas de palavras,

assim devastadora: eu tu e ela ele isso

 

nós, você?

 

(Que faça. Que os outros façam.)

 

Minha parte que se perca.

 

 Para Celan, fala a verdade quem fala a sombra. Bachmann fala de sombra, desejo e espera.

 

em terra estranha encontra sua sombra

sob um céu estranho sombras rosas

sombras sobre uma tera estranha

entre rosas e sombras

numa água estranha

minha sombra

 

Se o mundo pesa é preciso ter consciência desse peso: „Pergunto-me a toda hora e mil vezes/de onde me veio essa consciência pesada/essa dor surda e sempre mais profunda“. Na poesia a linguagem comum sai dos dentes, é rilhada, usa o termo knirschen é preciso destruir as frases, as imagens, procurar um outro uso da linguagem. Numa poesia extremamente pensada, e que sai das entranhas, voltar a aproximar o que a sociedade separa, Um pensamento alargado com a coragem que mostra em "Correnteza"

 

Tão longe na vida e tão perto da morte

que com mais ninguém posso disputá-la,

arranco à terra, para mim, a parte que me cabe.

 

finco no coração do pacifico Oceano

a cunha verde, me arrojo à beira-mar, eu mesma

 

Aves de estanho se levantam e cheiro de canela!

Com o meu assassino tempo estou a sós

Encrisalidamono-nos em ebriedade e azul

 

Um colega de Viena, Friedrich Frosch, quando lhe falei  que  estava traduzindo alguma coisa de Celan, me falou de  Ingeborg Bachmann. Com ele traduzi esses poemas. Na tradução, tentamos manter  no português o  estranhamento que Bachmann opera na língua alemã.

 A busca de uma outra lingua como de um outro lugar que marca sua poesia como a de Celan reacende tanto a insatisfação como a utopia, num momento em que a linguagem usada pelos meios de comunicação parece oferecer satisfação a todos os desejos. São poéticas que, indo contra o esteticismo que reduz a  relação de compromisso da poesia com a existência e uma situação histórica, mantêm o estranhamento. e o  pensamento num momento em que  se vende como literatura no mundo inteiro um esoterismo diluído que adormece os desejosos de sono e esquecimento. E que a violência é velada por comemorações que encobrem as perguntas cruciais.

Para Bachmann, não pode ser tarefa do escritor negar a dor, apagar seus sinais, se iludir sobre ela. Ao contrário, deve tomá-la como verdadeira e torná-la verdadeira mais uma vez para que possamos enxergar. A tarefa do escritor seria levar os homens ali onde se dilacera a experiência no sentido da Erfahrung de Benjamin o que os escritores podem fazer. Através do perigoso desenvolvimentodo mundo moderno fomos destituídos dessa possibilidade

 

 

Referências Bibliográficas:

 

Bachmann, Ingeborg. Sämtliche Gedichte. München: Piper Verlag, 1999.

_____. Gedichte, Erzählungen, Hörspiel, Essays. München, Piper Verlag, 1999.

_____. Malina. Frankfurt: Suhrkamp, 1980.

Bartsch, Kurt. Ingeborg Bachmann. Sammlung Metzler, Band 242 Stuttgart: Metzler, 1988

Ingeborg Bachmann. Wir müssen wahre sätzen finden. Gespräche und Interviews. Hrsg. C.Koschel und I von Weidenbaum. München: Piper ,1991

Ingeborg Bachmann, Bilder aus ihrem Leben mit Texten aus ihrem Werk. Hrsg.Hapkmeyer, A. München:Piper, 1997. 

Ingeborg Bachmann und Paul Celan.: poetischen Korrespondenzen. Hrsg. Von B.Böschenstein  und Sigrid Weigel. Frankfurt: Suhrkamp, 1997.



[1] Bachmann, I. Gedichte, Erzählungen, Hörspiel, Essays. München: Piper Verlag, 1999. 309

[2] Ver na revista Kunstforum,  BD.150, April, Juni, 2000, o artigo de Karin Thomas, "Vernetzte Zeiten: sobre Gerhard Richter, Anselm Kiefer, Heribert Ottenbach e Neo Rauch".

[3] Ver Profile (Magazin des österrichischen Literaturarchivs), Der literarische Einfall. Nr.I, 1998, p.72, Robert Pichl, "Böhmen liegt am Meer".

[4] Idem. P.314.

[5] Idem.P.309

[6] Idem. P. 349.

[7] Rancière, Jacques. Mallarmé, la politique de la siréne. Paris:Hachette, 1996

[8] Adorno. Lirica e sociedade, Noten zur Literatura

[9] Bachman, op.cit. p. 313

[10] _____.  Malina, p. 123

[11] Idem,p.309

[12] „A palavra seda“, Quaderna, Obras completas. Rio: Aguilar, 1994

[13] Op. Cit. P.310.